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Os anos 1920 foram um sonho febril e Portugal vestiu-o no Chiado

Os fabulosos anos 20 do século XX Centro de gravidade: Chiado

Joana Amaral Cardoso

Entre a I Guerra, a Grande Depressão e o Estado Novo, a década foi um hiato de desfıles de pernas na Baixa com modernistas e políticos a opinar sobre vestidos num mundo acelerado pelo jazz, cinema e desporto. Mas à espreita estavam as novas opressões, da ditadura militar aos ditames da moda

Atentação é grande: recordar os anos 1920 é encher os olhos da mente com flapper girls de cabelos e vestidos curtos de franjas a oscilar ao som do jazz e do charleston, um Grande Gatsby de juventude e prosperidade pós-guerra injectado pelo sonho do cinema de Greta Garbo, pela energia do desporto e pelo magnetismo de Paris. O sonho da moda dos anos 1920 foi febril e Portugal vestiu-o no Chiado, nas máquinas de costura caseiras e nas entregas à província, perante o estremunhar de quem vivia sem posses, fora dos grandes centros ou noutra sintonia moral. Um dos seus cronistas (talvez) mais inesperados é o futuro director dos secretariados de Propaganda Nacional e de Informação da ditadura, António Ferro, que enche livros e jornais com crónicas de encanto estético pelas mulheres e com a moda. “Bem haja a grande ilusionista...”, suspira em Praça da Concórdia (1929).

Os anos 1920 estão presos entre dois choques de realidade, a I Guerra Mundial e a Grande Depressão, e a moda é a sua esponja bronzeada, de braços e pernas depiladas, meias transparentes, olhos negros com lápis kohl, obcecada pela juventude e pela magreza. Para grandes levezas nos vestidos, grandes remédios nos casacos, volumosos, rematados a pêlo.

“A guerra libertou a maioria das mulheres da escolha do que vestir; não havia muitas opções: roupas laborais, uniformes — e traje de luto”, resume Charlotte Seeling em Moda: O Século dos Estilistas. É em parte assim, nas jardineiras e macacões de trabalho, que as calças conotadas com o masculino entram no roupeiro feminino. Do lado das elites, elas chegam pelo desporto, da equitação à caça.

A I Guerra Mundial deixou o mundo com uma dura proporção de três mulheres para um homem e mudou as tarefas de género. “Há uma mudança de paradigma: alguém tem de vender os jornais, entregar o leite. Esse é indubitavelmente o primeiro ponto de partida para a moda dos anos 1920 e que também em Portugal se deu”, faz notar ao PÚBLICO Paulo Morais-Alexandre, professor coordenador da Escola Superior de Teatro e Cinema.

É uma libertação agridoce e parcial, como a que a moda dos anos 1920 virá trazer. Mais jovial, sem espartilho, tudo parece alegria. “A relativa emancipação das jovens burguesas, motivada pela actividade laboral e pela liberalização dos costumes, permitiu a muitas delas tirar partido do corpo e da beleza como nunca antes tinham podido imaginar; mas a liberdade coexiste com a ansiedade social, e o crescente dinamismo das indústrias da moda foi também gerador de novas formas de submissão”, lembra Maria Helena Santana em Estética e Aparência, na obra História da Vida Privada em Portugal — A Época Contemporânea.

“O que é chic?”, perguntava a revista A Illustração em 1926, para logo responder: “Em primeiro lugar avoir l’air jeune, condição primordial da elegância.” Afinal, escreve Seeling, “o culto da juventude foi uma invenção dos anos 20 que os anos 60 se limitariam a reviver”.

É entre estas balizas críticas que se faz a moda dos anos 1920 em Portugal e no mundo. Profundamente influenciada por Paris, centro da cultura e do mundo na década dos “années folles”, bebe a música e o cinema dos “roaring twenties” americanos. O cabelo curto à garçonne, baptizado pelo então polémico livro La Garçonne (1922), de Victor Margueritte, serve para ouvir jazz mas também para a “moda do sport”, do ténis ao automobilismo.

Victor Carlos Cardim, no seu livro A Moda em Portugal — 1914 a 1959, descreve a radicalidade da mudança: “Um homem que fosse para a guerra no Verão de 1914, deixando a sua namorada com o seu vestido leve e solto, com a saia comprida e drapeada e a sua touca ou chapéu decorado, poderia vir a ser recebido por uma jovem moderna com cabelo cortado no estilo Bob, maquilhagem na cara bem marcada, vestido justo nas pernas e possivelmente fumando um cigarro numa boquilha comprida.” Coco Chanel faz o icónico tailleur à imagem do fato masculino, Jean Patou faz roupa desportiva, tudo o que é prático vinga, a silhueta tornase rectangular.

A art déco é a estética dominante e “em Portugal temos exemplos como o Cinema Éden, na arquitectura, e também se reflecte nas modas. É uma estética que corta com a arte nova, que contraria as suas formas curvas”, diz Paulo Morais-Alexandre. De Paris chegam as notícias das casas de Madeleine Vionnet, Jean Patou, de Coco Chanel, de Nova Iorque as revistas Vogue e Harper’s Bazaar. “Portugal sempre seguiu os ditames de Paris. A importância das costureiras e capelistas francesas para as elites e burguesia portuguesa continuou ainda por longos anos, até ao 25 de Abril”, diz ao PÚBLICO Victor Carlos Cardim, coordenador da pósgraduação Gestão da Comunicação e Branding de Moda da ISG Business School.

Em Lisboa, ia-se buscar o espírito do tempo à Baixa. Deixava-se para trás a “Brasileira de fatos coçados e cérebros lustrosos, esse beco sem saída onde todos estão à espera de vez para tomar café e ter talento”, como escreveu António Ferro, ex-editor da revista Orpheu, amigo de Fernando Pessoa ou Almada-Negreiros, marido da poetisa e dramaturga Fernanda de Castro, em Batalha de Flores (1923). Chegava-se ao Rossio e à Tabacaria Mónaco “para comprar o último número da Vogue, forrar os olhos com papel couché”.

Em Portugal faz-se o primeiro desfile de uma costureira de renome, o de Madame Vale, em 1929, começam a anunciar-se produtos de cosmética, como os de Madame Campos, nas revistas e pela primeira vez na história da moda as roupas usadas para a noite são tão curtas quanto as de dia. “A moda masculina não mudou muito”, opina Cardim, apesar de a revista Modas & Bordados ter, a partir de 1924, também passado a falar sobre moda masculina. “A grande transformação foi mesmo na moda feminina.” Mas a mudança, que também deu calças a vestir às mulheres e que até disfarçava o peito nos vesti

Em Lisboa ia-se buscar o espírito do tempo à Baixa. Deixava-se para trás “a Brasileira de fatos coçados e cérebros lustrosos”, como escreveu António Ferro, ex-editor da revista Orpheu

dos de linhas rectas e cinturas descaídas, não era saudada por todos — mesmo no cosmopolita Chiado.

Por um lado, em 1925, a revista ABC dedicava uma série de textos ao bairro central da capital — “no Chiado passam todas as pernas de Portugal”; era “um verdadeiro museu de pernas vivas” para ver “pernas de ‘burguesinhas’, de costureiras, de bailarinas, etc.”. Por outro, o cronista Eduardo de Noronha descreve em 1926 uma francesa que passeava na Baixa e que teve de se refugiar de violentos apupos por usar corpete decotado, “saias curtíssimas, logo acima do joelho” e “meia finíssima de seda transparente”.

Em Portugal, e sobretudo em Lisboa e Porto, “as mulheres conquistaram novas posições no meio social. Passaram a frequentar cafés, a fumar em público, a trabalhar em empresas”, recorda Cardim. Morais-Alexandre sintetiza: “O que chega inicialmente não é aceite, mas depois vão vestir- se assim.” O debate, porém, parece nunca parar. Em 1928, Júlio Dantas ainda dirimia argumentos sobre o comprimento das saias, reconhecendo que as longas eram pouco práticas, mas... não havia necessidade de mostrar o joelho. “A suprema elegância de todas as modas está no sentimento da sobriedade, da discrição e do meiotermo”, escreveu o médico e escritor no Jornal da Mulher. As saias dos anos 1920 eram precisamente as “midinettes”.

“Requintada, à moda da época”

Há nomes que dizem tudo, e que resistem até hoje como testemunhos da história das modas portuguesas. Paris em Lisboa é uma loja numa bonita esquina do Chiado, nascida em 1888 e uma das fontes para a sede portuguesa de moda francesa. No número 77, as costureiras afadigavam--se em torno das sedas ou lãs que vendiam e dos artigos que confeccionavam. “Com taes e tantos predicados, não admira, pois, que este novo estabelecimento seja hoje o ponto de reunião da nossa feminilidade elegante”, escrevia o jornal A Folha de Lisboa em 1894.

É no mesmo Chiado que a modernidade toca à porta da casa dos portugueses, desta feita a partir dos Armazéns do Chiado. Não é só porque ali se vendem os tecidos e as modas à imagem dos grandes armazéns parisienses, mas porque foi ali que se instalou a telefonia sem fios, na forma da estação amadora Rádio Lisboa, porque era na loja lisboeta que estavam os representantes dos rádios da Phillips ou da RCA. Foi também lá que se fez o primeiro desfif le.

As grandes modistas estavam no eixo Marquês de Pombal-Avenida da Liberdade, a Casa Africana confeccionava boas peças, passeava-se de carro pela Baixa lisboeta. A casa de Veva de Lima (ou Palácio Ulrich, que tem o único interior dos anos 1920 intacto em Portugal) era palco de tertúlias e salões literários. Fernanda de Castro descreve a sua actriz principal nas suas memórias Ao Fim da Memória, recuperadas por MoraisAlexandre. “Umas vezes recebia os seus convidados hierática e com um sorriso sempre um pouco esfíngico, no alto das escadarias de sua casa; outras, reclinada num leito romano no mais belo dos seus salões. Quando se levantava e circulava entre os convidados, os seus vestidos de lamé, de brocado ou de chiffon, os seus sapatos ou os seus coturnos faziam-na parecer mais alta e ainda mais delgada. Era uma figura delicada, requintada à moda da época.” Mas se de Lisboa se via o mundo, nem Lisboa era Paris, nem Portugal o Chiado.

Um golpe bom para a moda

Durante a I Guerra, a necessidade aguçou o engenho e transformou a moda. A escassez de materiais e de notícias do estrangeiro tornou a moda mais simples e versátil. Na década de 1920, as revistas portuguesas — Eva, Modas & Bordados, ABC, Ilustração — mostravam como confeccionar os novos estilos. Eram as mulheres burguesas as mais permeáveis às novidades e padrões de beleza, com as elites a poder encomendar de Paris ou fazer à medida. Mas “as classes menos abastadas copiavam a moda”, faz notar Valter Carlos Cardim ao PÚBLICO. “A máquina de costura, os cursos de corte e costura contribuíram para difundir a moda ainda mais.”

Em 1925, é fundada a portuguesa Oliva, cujas máquinas de costura suplantariam as Singer duas décadas mais tarde no pódio dos pequenos móveis de madeira e ferro que serviam para trabalhar e para acompanhar os tempos a partir de casa. “Lisboa e Porto eram os mais principais centros de moda”, prossegue o membro do grupo de investigação Cultura e Sociedade da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Todavia, ela emanava também de outras formas. Os armazéns tinham carrinhas que entregavam roupa país fora e “muitos costureiros e casas de moda publicavam anúncios a dizer que entregavam os modelos para outras cidades e províncias” — a Modas & Bordados até vendia roupa por correspondência.

Os loucos anos 1920 são de facto loucos em Portugal, porque a meio da década o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 impõe uma ditadura militar que desaguará no Estado Novo em 1933. Um turbilhão de mudanças morais e sociais enleia-se num momento político que, também pleno de contradições, até favorece as efusivas modas. É na segunda metade da década — “os années folles duraram apenas cinco anos, de 1924 a 1929”, realçava já Charlotte Seeling, mas a iconografia é forte, porque tudo “se viveu de maneira extremamente intensa” — que surgem mais revistas e mais costureiras. “Em Portugal, a ditadura não restringiu a expansão da moda e nem a nacionalizou, como aconteceu na Alemanha e Itália”, escreve Valter Carlos Cardim, e as novas modas “serviram plenamente às classes que ascenderam com o novo regime estabelecido”.

Para Morais-Alexandre, ainda assim a penetração da moda dos anos 20 “não é tão visível nesta fase” — as elites estão a mudar. “Temos um período de ouro, quando o rei D. Luís e depois D. Carlos levam a corte para Cascais, quando a sociedade de corte vive à volta do Sporting Club de Cascais. É a Belle Époque pura, arte nova.” Defende que a Belle Époque morre em Portugal com o regicídio. “Há uma nobreza que se passa para a República, Anselmo Braancamp Freire, os Relvas, e há uma classe industrial que se forma e que é republicana, como [Francisco] Grandella. Mas estão demasiado ocupados a criar riqueza para se dedicar ao luxo”, acredita. As segundas gerações é que o viverão em força, diz.

“Os anos 1920 são demasiado conturbados para haver desenvolvimento da moda. Portugal não tem estabilidade — mas tem fortunas, novos industriais. Porém, as [suas] mulheres são relativamente modestas, não gostam de dar nas vistas”, remata Morais-Alexandre. A funcionalidade é a grande conquista dos anos 1920 no vestuário. Chanel joga ténis, passeia-se com a nobreza, bronzeia-se, mas são o corte, os materiais e a masculinização libertadora da sua criação que a tornam tão relevante.

No livro Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1933), o jornalista, escritor e artista Calderon Dinis olha para a Lisboa da década anterior e para “as chiques”. Citado por Victor Carlos Cardim, lembra como “naquele tempo as elegantes que se abalançaram à saia-calção, o último grito de Paris, foram apupadas nas ruas de Lisboa! Não tardou a linha direita, simples, sem volumes, os cabelos à garçonne; banidos os grandes chapéus, surgiu o cloche”, prossegue. “Passaram a frequentar mais à vontade as pastelarias e as matinées dos cinemas, o que anteriormente parecia mal! Pouco depois já andavam em cabelo, provocando a necessidade de cabeleireiros, o que permitiu que se estabelecessem em Lisboa cabeleireiros que antes eram barbeiros. De Verão aboliram as meias e foram para as praias do Estoril escurecer-se, queimar-se, ainda com discretos fatos de banho.” Resumo de uma década de modas, versão burguesa? Feito.

Das crónicas de moda não rezam histórias dos meios rurais, das vilas ou ilhas populares das grandes cidades portuguesas, nem da sua pobreza e analfabetismo. A moda, como hoje, era uma realidade estratificada ou uma aspiração rarefeita. “O vestido tem uma vida mais intensa e mais imperativa. O corpo obedece. O vestido ordena. Um corpo é igual a todos os corpos; um vestido é um corpo único”, escreveu o modernista António Ferro, escritor e divulgador cultural na imprensa antes de fundar algumas das políticas mais manipuladoras do Estado Novo. Em Teoria da Indiferença (1920), decreta: “Vestir é sempre mentir.”

O vestido tem uma vida mais intensa e mais imperativa. O corpo obedece, o vestido ordena. Um corpo é igual a todos os corpos; um vestido é um corpo único (...) Vestir é sempre mentir

António Ferro

Nos anos 20, antes da ditadura

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