Ninguém espera pelo regresso do cavaquismo, mas deveria
Rui Tavares
Diz-se dos generais que combatem sempre como na sua batalha mais recente. E dos líderes políticos poderia dizer-se o mesmo: que traçam as suas estratégias como da última vez em que foram derrotados ou da última vez em que foram vitoriosos, porque são essas as ocasiões que estão mais frescas nas memórias. Mas às vezes são as penúltimas e antepenúltimas memórias que conviria recordar como lição.
Para ilustrar esta ideia: a esquerda portuguesa parece estar a viver estes anos como se a direita portuguesa com quem lhe compete competir fosse a de Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e da austeridade. Isso ajuda a explicar a forma quase sonambúlica com que se dirigem para um impasse negocial no Orçamento que terá como resultado pré-anunciado pelo Presidente da República a realização de eleições antecipadas. De um lado e do outro da esquerda, governativa e parlamentar, parece acreditar-se que a memória da direita que estará mais fresca na mente dos portugueses será a de entre 2011 e 2015, da troika e das suas avaliações trimestrais. Talvez haja a ilusão de que numa próxima campanha eleitoral baste discursar contra o fantasma da austeridade passada para que uma maioria de esquerda saia das urnas e volte a sentar-se no Parlamento.
Este raciocínio encaixa particularmente bem numa certa narrativa eurofóbica à esquerda, que faz sempre equivaler “União Europeia” e “austeridade”. Nesta narrativa, a única coisa que está entre os portugueses e a austeridade de recorte europeu é a resistência às “imposições de Bruxelas”. Mas, por sua vez, essa narrativa encaixa mal com o facto de que não só as regras orçamentais de zona euro se encontram suspensas (e, paradoxalmente, foram todos os orçamentos da “geringonça” de antes da suspensão dessas regras que passaram sem espinhas) como sobretudo o que há de investimento público neste orçamento — e, crescentemente, nos próximos — vem dos fundos europeus, quer sejam os tradicionais quer sejam os de
“próxima geração” a partir de dívida “federal” europeia.
É desses fundos europeus que qualquer governo saído de umas próximas eleições irá beneAEciar cada vez mais nos próximos anos. O que quer dizer que ninguém, à esquerda ou à direita, irá fazer campanha baseado na defesa da austeridade, como aliás ninguém faz se o puder evitar. A questão a debater em Portugal, com eleições ou sem elas, é como esses fundos devem ser gastos e com que propósito, e isso deve ajudar-nos a ter respostas para todos os temas estruturais que enfrentamos, das alterações climáticas à dependência da nossa economia dos salários baixos.
Ora, existe uma versão da esquerda e da direita nesse repertório em que União Europeia rima menos com “avaliações trimestrais” e mais com “fundos estruturais”. Basta irmos buscar à memória, não das últimas batalhas, mas das penúltimas e antepenúltimas. A versão da direita com que a esquerda se vai confrontar nas próximas eleições não é a do passismo; bem pelo contrário, é do cavaquismo que se trata.
Já ouço quem resmungue: o cavaquismo? De que baú sai essa analogia? Pois é muito simples, o cavaquismo foi uma versão da direita portuguesa em tempos de fundos europeus abundantes. E, crucialmente, tratou-se de uma versão da direita portuguesa popular e com grande sucesso eleitoral, facilitado por esses mesmos fundos. Cavaco Silva ganhou as duas primeiras maiorias absolutas da história da nossa democracia e, mais à frente, ganhou duas eleições presidenciais à primeira volta. Aliás, na sua carreira política, Cavaco Silva só perdeu uma eleição — e, não por acaso, essa derrota foi perante um Jorge Sampaio que conseguira fazer a convergência à esquerda em Lisboa e em favor do qual desistiu então Jerónimo de Sousa, do PCP.
Para quem é de esquerda e viveu a sua adolescência sob o cavaquismo, como eu, a memória é inevitavelmente negativa — como se a própria política tivesse sido desidratada sob a visão seca do homem que dizia de si mesmo “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. Mas é importante sairmos da bolha que as nossas memórias nos constroem para perceberemos que a versão da direita portuguesa que Cavaco representou foi, para o eleitorado maioritário que nela se revia, um horizonte de previsibilidade e despolitização que inevitavelmente viam como positivo.
Sou de opinião que aquilo que funcionou então também pode funcionar agora e que a direita portuguesa, se for esperta, concorrerá nas próximas eleições na sua versão cavaquista e não na passista. Digo isto não como desejo, mas como alerta. A esquerda deve olhar mais longe e ver que se não se entende para lá do Orçamento deste ano e não apresenta uma visão de Portugal para a década, pode muito bem acabar por passar o resto desta década no lugar de espectadora.
A versão da direita com que a esquerda se vai confrontar nas próximas eleições não é a do passismo; bem pelo contrário, é do cavaquismo que se trata
Historiador
Desporto
pt-pt
2021-10-20T07:00:00.0000000Z
2021-10-20T07:00:00.0000000Z
https://ereader.publico.pt/article/282102049868818
Publico Comunicacao Social S.A.