Sanjo aos 90 anos: “Não são só sapatilhas, fazem parte da História de Portugal”
A história da marca nascida em São João da Madeira está repleta de sobressaltos. Graças aos novos proprietários, voltou a ser produzida em Portugal, com o cuidado que merece quase um século de vida
Inês Duarte de Freitas Texto Manuel Roberto Fotografia
Numa passadeira rolante, as sapatilhas da Sanjo circulam entre as estações de trabalho da fábrica, em Felgueiras. Algumas ainda não têm solas, enquanto outras estão sem atacadores. São todas azuis, da sola à clássica lona, uma das novas criações, distinta das míticas sapatilhas a preto e branco criadas há 90 anos. A nova Sanjo é para saudosistas, claro, mas também está a conquistar os mais jovens.
Os operários da Aboutoday parecem estar num exercício de natação sincronizada. No início da linha estão as costureiras, sentadas à máquina, a coser a lona dos ténis — ou sapatilhas, como se diz no Norte. Depois, em caixas, separadas por modelos, os corpos do sapato estão prontos a serem colocados em formas que lhe darão a ergonomia necessária para serem calçados. Colocam-se as solas em termoplástico vegano reciclado e passam para a finalização.
Parece simples, quando assim descrito, mas há minúcia no trabalho, verificado cuidadosamente antes de entrar nas caixas em que chegarão às lojas. Tem sido assim desde meados de 2019, quando a Sanjo foi relançada pelos empresários Egipto Magalhães e Hélder Pinto, com o olhar criativo do designer Vítor Costa. Os últimos donos tinham-na conduzido ao marasmo, em parte por culpa da produção na China, que afectou a qualidade das sapatilhas portuguesas.
É inegável a constatação de que fazem parte do imaginário português e fizeram suspirar jovens por décadas, desejando ter um par. As Sanjo — de São João da Madeira, como o nome indica — nasceram em 1933, fruto de um acaso, no meio de uma fábrica de chapelaria, recorda Hélder Pinto ao PÚBLICO. “Na década de 1930, o chapéu começava a entrar em desuso e, como alternativa, os proprietários pensaram em fazer sapatilhas.”
A marca foi um sucesso imediato também graças ao proteccionismo do Estado Novo. Não que o design das sapatilhas tivesse sido particularmente inovador, considera Vítor Costa, já que terão mimetizado uma marca francesa então em voga. “Tentavam aproximar-se do que se fazia lá fora. Não era de todo uma ideia original.”
Ainda assim, por cá foi assim considerada. “O Salazar devia ter uma quota na empresa, porque as escolas usavam estes modelos e o Exército também era equipado com Sanjo”, imagina, com humor, Hélder Pinto. “Mas Salazar também usou Sanjo?” Não resistimos a perguntar, ainda que não existam provas fotográficas de que tal tenha acontecido.
Quando Portugal se abriu ao mundo, a empresa sanjoanense entrou em crise. “Quando estamos muito tempo fechados, queremos ter uma experiência nova”, observa o director criativo. Entretanto, a marca havia sido comprada por uma empresa alemã, que, face à falta de lucro, abriu insolvência em 1996.
Volvida mais de uma década, um novo proprietário ainda tentou dar nova vida às icónicas sapatilhas, mas sem sucesso — até chegarem Hélder Pinto e o sócio Egipto Magalhães. Os dois têm uma empresa de fardas e um dos clientes pediu-lhes umas sapatilhas personalizadas, que fizeram com a Sanjo. Compraram a empresa e desafiaram-se mutuamente a recuperar o projecto, no início de 2019, mas agora com produção portuguesa — voltando à qualidade original.
Jovialidade centenária
“Não sabíamos que a marca ainda estava tão enraizada. Foi uma surpresa”, confessa Hélder Pinto. Então, conta, receberam testemunhos “comoventes” de histórias pessoais com a Sanjo. “Isto não são só umas sapatilhas. Fazem parte da História de Portugal. É um legado com 90 anos”, declara, visivelmente orgulhoso.
Mas, com 90 anos, corriam o risco de ficar para a história ou de serem apenas peças de museu, se não dessem um passo mais além — sem descurar no design “icónico”, uma silhueta reconhecível até pelos mais leigos, considera o director criativo Vítor Costa. “O que me inspirou foram as subculturas urbanas e a nostalgia, sem a pretensão de tentar seguir tendências actuais, porque já temos um legado muito forte”, insiste.
Manteve os clássicos K100 e K200, os modelos mais conhecidos, que foram melhorados no conforto, nos detalhes, como os furos da sola, e nos materiais, em especial a utilização do burel português ou da cordura. “Tentei tornar o modelo mais feminino e, por uma questão de longevidade, tentei que fosse para nichos mais novos”, explica.
A média de idades já foi invertida — mesmo com uma pandemia pelo meio — e é a pensar neles que Vítor Costa tem criado novos modelos de sapatilhas, mantendo a estética vintage. “Quando abrimos a caixa, sentimos que estamos no passado”, promete, explicando que sempre quis que a nova versão da marca “trouxesse a carga histórica”.
De seguida, o grande desafio que se coloca é a internacionalização. “Ainda representou apenas 12% da facturação em 2022”, adianta Hélder Pinto, que garante que estes são os primeiros passos, apesar de a marca já ter “qualidade e design universal”. Para já, estão em lojas de nicho, em países como Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Itália ou Israel. Na loja online, acumulam também vendas para o estrangeiro, mas “90% das vezes é um José António” — ou seja, os portugueses pelo mundo.
Os saudosistas, que outrora desejaram ter um par destas sapatilhas, continuam por aí. Mas agora, além de calçarem, também podem vestir Sanjo. A colecção de vestuário tem sido uma aposta de Vítor Costa, que primeiro se estranhou, mas já se entranhou. “A Sanjo vem de um ambiente industrial e quisemos levar essa carga para a roupa mais pesada, de trabalho”, detalha.
A colecção do próximo Inverno é apresentada neste sábado, 23 de Setembro, no Porto, e traz a estética do basquetebol. A ambição é conquistar da cabeça aos pés, mantendo a história, mas olhando para o futuro, conclui o designer, com optimismo. “Durante estes 90 anos, se calhar, a Sanjo não foi tratada como devia ter sido, mas temos a convicção e resiliência de quem acredita para continuar.”
Os saudosistas, que outrora desejaram ter um par das sapatilhas, continuam por aí. Mas agora, além de calçarem, também podem vestir criações da Sanjo
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