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Os homens não choram, não dançam, não se beijam. Pelo menos, nos filmes

Os passos de Fred Astaire ou a icónica dança de Patrick Swayze são excepções. No grande ecrã, os estereótipos perpetuam-se e um homem não chora

Tiago Ramalho

Podemos considerar todos os estereótipos criados em torno da ideia de masculinidade: um homem não chora, não mostra qualquer fragilidade e é desligado do mundo dos afectos. Se, a partir daqui, olharmos para o cinema, só encontraremos semelhanças. Nos filmes de Hollywood, os homens não choram, não dançam, nem mostram qualquer afecto, comparativamente com aquela que é a representação das mulheres no grande ecrã.

Não é uma ideia surpreendente. Os movimentos de dança clássicos de Fred Astaire, de Patrick Swayze em Dirty Dancing ou mesmo de Channing Tatum em Magic Mike são a excepção quando se analisa os guiões de mais de 900 filmes produzidos entre 1909 e 2013. Estas conclusões são agora publicadas na revista científica PLOS One e não surpreendem. Aliás, alinham-se com os filmes que provavelmente nos vêm mais rapidamente à memória, em que o afecto, o choro e a dança estão maioritariamente centrados nas personagens femininas.

Há, no entanto, algo que surpreendeu Victor Martinez Palacios, investigador da Universidade da Califórnia do Sul (Estados Unidos), o responsável principal por esta análise às acções descritas nos 912 guiões dos filmes: também há distinção entre casais do mesmo sexo. “Um dos resultados que obtivemos mostra que as demonstrações de afecto de homem para homem são estatisticamente menos frequentes do que em qualquer outro emparelhamento — ainda menos frequentes do que de homem para mulher ou mesmo de mulher para mulher”, explica ao PÚBLICO.

A história de Jack e Ennis em Brokeback Mountain é um bom exemplo da excepção à regra neste caso. A surpresa, neste caso, advém sobretudo por ser a primeira vez que esta análise do afecto entre os casais homossexuais no cinema é estudada.

Mulher é casada e mãe

A investigação científica no cinema tem incidido cada vez mais nas representações que este faz das personagens, principalmente em termos de género (mas não só). As mulheres continuam a ser maioritariamente apresentadas em contextos românticos, muito associadas a relações amorosas e a casamento. Por outro lado, as personagens masculinas apresentam menos sentimentos, estão mais associadas à violência, ao crime e à morte.

Estas são as conclusões de um outro estudo, da Universidade Nacional de Singapura, publicado em Maio deste ano na revista Big Data and Cognitive Computing, que analisou as frases de 200 filmes entre 1940 e 2019 para reforçar a ideia existente: os estereótipos de género ainda estão presentes no cinema. Aliás, um dos destaques é mesmo uma presença das figuras femininas associadas frequentemente ao casamento e a relações amorosas.

Podemos dizer que, apesar disso, há algumas notícias positivas. Há menos mulheres no cinema a apaixonarem-se pela personagem masculina e a correrem atrás dela, num estilo de comédia romântica ao domingo à tarde. E há também menos personagens femininas passivas, ou seja, que respondem à narrativa de um protagonista homem.

O icónico dançarino representado por Patrick Swayze ou os beijos entre os protagonistas de Brokeback Mountain são excepções à regra no cinema de Hollywood

O protagonismo de homens também não é novo. Uma outra análise de 500 filmes estreados entre 2007 e 2012 descobriu que 70% do tempo em que as personagens falam num filme é ocupado por homens, segundo os resultados divulgados pela Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg da Universidade da Califórnia do Sul (USC Annenberg).

Regressando ao trabalho de Victor

Martinez Palacios, uma das indicações de representação mais dadas nos guiões às mulheres nos filmes de Hollywood é o olhar para longe, introspectivamente. “Acreditamos que, ao usar este arquivo [de guiões de filmes], isto nos dá uma amostra representativa dos comportamentos e das acções das personagens no ecrã”, acrescenta ao PÚBLICO Victor Martinez Palacios. O investigador

liderou este trabalho com outros dois colegas da mesma universidade, num desenvolvimento da sua própria tese de doutoramento.

“Desde a licenciatura que tenho interesse em explorar as representações das personagens e a diversidade no ecrã. Queria dar um passo em frente e ligar os pontos entre as acções realizadas pelas personagens e como estas acções podem reforçar os estereótipos com base no género.”

Espaço de objectificação

Todas as formas de comunicação podem constituir um espaço para objectificar ou perpetuar estereótipos — no caso do cinema norte-americano, a audiência é enorme. Uma das conclusões retiradas dos 912 guiões analisados, através de um algoritmo de machine learning (aprendizagem automática) desenvolvido por Victor Martinez Palacios, é que as mulheres continuam a ser o alvo dos olhares e da observação das outras personagens nas cenas de um filme.

Há exemplos ainda mais claros. Elizabeth Behm-Morawitz (Universidade do Missouri) e Dana E. Mastro (Universidade do Arizona), investigadoras em comunicação, analisaram os 20 filmes de adolescentes com mais receitas nos Estados Unidos, para perceber que impacto estas representações podem ter nas adolescentes. “Apesar de muitos filmes de adolescentes dizerem que promovem a emancipação das mulheres jovens, também é claro que estes filmes assentam em representações estereotipadas, como o das miúdas más”, escrevem no artigo publicado na revista Journalism and Mass Communication Quarterly em 2008. O exemplo perfeito para esta conclusão será mesmo o filme Mean Girls, com Lindsay Lohan e Rachel McAdams. “Estes filmes parecem transmitir a mensagem de que o sucesso num mundo social feminino é obtido através de métodos traiçoeiros”, acrescentam as autoras.

Apesar deste impacto, a presença das mulheres em Hollywood tem tido um crescimento ao longo dos últimos anos. Em 2020, um relatório da USC Annenberg mostrava que, nos 100 filmes com mais receitas de 2019, 43 tinham uma mulher como protagonista ou co-protagonista. E, num outro estudo da Universidade da Carolina do Sul, é demonstrado que os filmes com personagens femininas como protagonistas não vendem menos bilhetes, nem têm um efeito negativo nas verbas arrecadadas.

Os efeitos dos filmes (e da televisão, rádio ou outro meio de difusão) na audiência têm sido estudados há mais de meio século, com potenciais impactos na formação dos adolescentes ou nas práticas sociais tidas como frequentes ou aceites.

A presença maioritária das mulheres em papéis de apoio emocional num filme ou enquanto personagens passivas, como nota o trabalho agora publicado por Victor Martinez Palacios, não absorve ainda os indicadores positivos da presença de mulheres na indústria cinematográfica dos Estados Unidos, nem desmente os estereótipos masculinos perpetuados pelo cinema — deixando como exemplos quase solitários filmes como Dirty Dancing ou o mais recente Call Me By Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome), protagonizado por Timothée Chalamet e Armie Hammer e que dá palco aos beijos entre dois homens.

Algoritmos como alavanca

As demonstrações de afecto de homem para homem são menos frequentes do que em qualquer outro emparelhamento

Victor Martinez Palacios Cientista

Na conversa com o PÚBLICO, o investigador da Universidade da Califórnia do Sul destaca precisamente a esperança que a machine learning representa para identificar e ajudar a alterar aquilo que são as disparidades e a perpetuação dos estereótipos no cinema. “Estes resultados são apenas um exemplo de como podemos usar estas ferramentas em diferentes sectores para obter uma visão sobre os estereótipos que podem estar a ser reforçados inconscientemente”, diz, notando que este tipo de análises pode ser utilizado noutro tipo de áreas do entretenimento, como as séries ou programas de televisão, e também na informação — pelo menos.

A proposta inicial era utilizar a machine learning para identificar os estereótipos no diálogo das personagens — mas estes métodos não distinguem estereótipos apenas através da acção das personagens. “Para resolver esse problema, desenvolvemos uma estrutura de machine learning

em grande escala para identificar acções das personagens a partir das descrições que estão no guião dos filmes”, explica. Nos 912 filmes, foram recolhidas 1,2 milhões de descrições de cenas.

Para já, este estudo apenas olhou para as acções consoante o sexo da personagem, mas no futuro Victor Martinez Palacios quer incluir uma análise mais detalhada aos guiões do cinema norte-americano. Quais? “Principalmente, aspectos como a etnia e a idade das personagens, para destacar outros possíveis estereótipos como o ‘homem negro furioso’ ou a ‘jovem latina sexy’”, responde.

O trabalho publicado na PLOS One

dedica-se apenas ao cinema norte-americano, utilizando uma base de dados já existente, com os 912 filmes de Hollywood. A maior limitação foi mesmo a obtenção dos guiões, como explica o investigador ao PÚBLICO, daí a utilização de uma base de dados já existente.

De fora desta análise, ficam grandes mercados do cinema como a Índia (Bollywood), a Nigéria (Nollywood) e ainda a Europa, tradicionalmente mercados com peso na produção cinematográfica — e também nas receitas amealhadas. Ainda assim, tanto Bollywood como Nollywood apresentam semelhanças com o cinema norte-americano: o estereótipo parece estar presente.

Um estudo publicado em 2019 na revista Journal of International Women’s Studies, com análise de dez filmes nigerianos ao longo de duas décadas, mostra que as mulheres têm papéis menores e, quando representam “mulheres de sucesso”, tendem a ser apresentadas como perigosas. Já este ano, na revista Patterns, uma equipa da Universidade de Carnegie Mellon (Estados Unidos) olhou para 70 anos de Bollywood, constatando que, apesar de uma melhoria ao longo das últimas décadas, continuam a existir disparidades de género no cinema indiano e, também, de etnia e religião.

Ciência E Ambiente Estereótipos Mantêm-se No Cinem

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2022-12-28T08:00:00.0000000Z

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