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Silicon Valley Bank: como faliu o “banco das startups”

SVB ruiu como um baralho de cartas, à custa de opções de gestão discutíveis que se revelaram fatais com a subida das taxas de juro

Victor Ferreira

O Silicon Valley Bank (SVB) nasceu a 17 de Outubro de 1983, pela mão de dois gestores do Bank of America, que quiseram criar uma instituição focada nas necessidades das empresas emergentes de tecnologia (as startups). A ideia nasceu durante uma partida de cartas (póquer). Ficou sediado no condado de Santa Clara, Califórnia, a que corresponde em termos geográficos o famoso Silicon Valley, uma das regiões mais ricas do mundo (medida pelo PIB per capita) e berço da forte indústria tecnológica dos EUA, que de resto serviu para baptizar a própria instituição.

Desde o início, o SVB actuou como intermediário entre empresas emergentes que precisavam de financiamento e os investidores em capital de risco (venture capital, ou VC) ou capital privado (private equity, ou PE) que estavam interessados em apostar em negócios inovadores, aos quais estão em regra associados maiores riscos mas também maiores retornos financeiros. Por causa disso, o SVB ficou para a história como o “banco das startups”. Numa apresentação ao mercado a dois dias da falência, quando tentava desesperadamente um aumento de capital e se propunha a vender com enorme desconto títulos de dívida pública que adquirira nos anos bons com os depósitos de empresas e particulares, o SVB disse que tinha entre os seus clientes “cerca de metade das empresas de tecnologia e ciências da vida apoiadas nos EUA por VC”.

O banco não só guardava depósitos como também actuava enquanto instituição de crédito, financiando dívida, e fazia-se também pagar por serviços prestados, como consultadoria ou broker. A parte de banco privado representava 7% dos depósitos.

No ano em que completaria 40 anos de vida, o SVB (gerido por uma holding, a SVB Financial Group) ainda era considerado um banco regional nos EUA, mas tinha-se expandido para outros países e regiões (Canadá, Reino Unido, Israel, Alemanha, Dinamarca, Irlanda, Suécia, Índia, China e Hong Kong), de acordo com o último relatório e contas de 2022.

E o que ditou a falência?

Resumidamente, o SVB faliu por causa de más opções de gestão. E porque a informação hoje em dia circula a uma velocidade enorme, o que tanto pode ser benéfico como problemático. Neste caso, foi fatal, porque amplificou rapidamente receios, gerando uma corrida aos depósitos que empurrou o banco para o colapso.

O facto de ser o banco das startups não ditou este desfecho, mas ter muitas startups como clientes acabou por contribuir para a falência.

Que problemas é que surgiram e quando?

O financiamento de startups mudou fortemente no último ano. Até 2021, com as taxas de juro baixas e o crédito fácil, muitas startups conseguiram atrair VC, dinheiro que acabava em depósitos neste banco. Entre 2019 e 2022, o valor depositado no SVB triplicou.

Os depósitos (que até ali custavam pouco à banca porque as taxas de juro eram baixíssimas) são muitas vezes usados para novos empréstimos a outros clientes, que depois pagam juros sobre essa dívida. No SVB, os gestores optaram por desconsiderar essa saída, considerando que a margem financeira (diferença entre juro recebido de empréstimos e o juro pago por obter dinheiro) era mínima e pouco atractiva.

Em alternativa, compraram maciçamente títulos de dívida pública dos EUA com prémio de risco baixo mas maturidades muito longas. Foram mais de 90 mil milhões de euros numa panóplia de títulos norte-americanos. Muitos deles eram contratos garantidos por hipotecas, produtos do Estado de baixo risco. Isto não seria problema se o banco não precisasse de liquidez. E desde que as taxas de juro não subissem, porque nesse caso o valor destes títulos desceria.

O problema é que houve mesmo uma viragem das taxas de juro, com uma subida gradual e forte. Os títulos no balanço do banco começaram a desvalorizar (primeiro problema, mas menor) e mudaram os ventos de feição para as startups, que começaram a precisar dos depósitos precisamente quando todo aquele dinheiro estava “empatado” (segundo problema).

Segundo as contas do SVB, 37% dos 177 mil milhões de dólares que tinham sido depositados provinham de startups em fase inicial. Ou seja, empresas muito jovens, da tecnologia(29%) e das ciências da vida (8%), que estão no arranque, sem receitas, sem lucros, que precisam

2008 Janet Yellen, secretária do Tesouro dos EUA (em baixo), deixou claro que a intervenção ficará longe da que teve lugar na última crise financeira

de dinheiro constantemente para pagar os esforços de inovação. Estas empresas financiam-se por ciclos sucessivos (rondas) em que vão ao mercado de VC buscar dinheiro. Mas o mercado de venture capital começou a “secar”, porque a subida acentuada das taxas de juro mudou a avaliação de risco nos projectos de investimento. Se o dinheiro sai caro a quem financia sem qualquer garantia de retorno, privilegia-se empresas mais maduras, mais seguras, talvez as que cresçam menos mas que já impressionem pela rentabilidade. Foi nesse cenário que começou uma corrida aos depósitos, a um ritmo cada vez mais forte. No início de Março, o banco já não conseguia responder à procura e, por isso, pegou em títulos de 21 mil milhões de dólares que estavam disponíveis para venda (venciam dentro de um a cinco anos) e desfezse deles com um prejuízo de 1800 milhões de dólares.

Foi a venda de títulos ao desbarato que levou à falência?

O prejuízo em si não seria grave noutras circunstâncias. O SVB tentou um aumento de capital que mais do que cobria esse prejuízo. Mas essa tentativa falhou. E as mensagens sobre as dificuldades do banco começaram a intensificar-se e a circular entre quem lá tinha o seu dinheiro.

O nervosismo foi aumentando porque os títulos no balanço também estavam a desvalorizar. O banco teria de reconhecer perdas de mais de 15 mil milhões de dólares.

Portanto, mesmo que pudesse vender tudo no imediato, a receita não cobriria os depósitos. A corrida aos levantamentos, que já vinha de trás, intensificou-se, gerando uma situação que acabou com a falência. Só na última quinta e sexta-feira, houve tentativas de levantar 40 mil milhões de dólares.

Há alguma semelhança entre o SVB e o Lehman Brothers, falido em 2008?

Não. Na dimensão são totalmente diferentes (o Lehman era duas vezes maior), no tipo de clientes também, e a única semelhança é que ambos actuaram com extrema liberdade no que toca ao grau de risco, que só foi controlado pelos reguladores quando já era tarde demais.

Quando o Lehman faliu, as taxas de juro estavam a cair. Agora, com o SVB, as taxas de juro estavam a subir, o que contribuiu em algum grau para o resultado.

É possível haver um efeito de contágio?

O SVB em si não apresenta risco sistémico, segundo as autoridades. Os depósitos até 250 mil dólares estão garantidos. Washington assegurou no entanto que ninguém fica sem dinheiro, preocupando-se em acalmar os clientes de outros bancos que têm apostado no mesmo tipo de instrumentos e agora estão a enfrentar cenários adversos. Ao mesmo tempo, disse que os contribuintes não vão pagar mais um resgate do banco. Será preciso esperar para ver como se conseguirão alcançar estes dois objectivos aparentemente contraditórios. Mas há preocupações sobre o efeito que a contínua subida dos juros pode ter noutros bancos regionais, tanto nos EUA, como na Europa e na Ásia.

Economia

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2023-03-15T07:00:00.0000000Z

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