Falência do Silicon Valley Bank faz subir receios de fuga de depósitos para produtos mais rentáveis
Analistas alertam para o efeito adverso que alta dos juros poderá ter sobre os bancos, pressionados a remunerar depósitos
Rafaela Burd Relvas
A falência abrupta do Silicon Valley Bank (SVB), encerrado nesta sextafeira pelas autoridades norte-americanas depois de uma fuga em massa de fundos, está a deixar os mercados em alerta. A banca, acreditam os analistas, está numa situação mais favorável do que aquela em que se encontrava aquando da última crise financeira, apresentando níveis elevados de capitalização, mas a procura por produtos de poupança mais rentáveis do que os depósitos tradicionais pode vir a representar uma preocupação para o sector.
Especializado no financiamento de start-ups, o SVB era o 16.º maior banco dos Estados Unidos da América (EUA), com um activo de 209 mil milhões de dólares (mais de 196 mil milhões de euros, à cotação actual) e 175,4 mil milhões de dólares (cerca de 165 mil milhões de euros) em depósitos no final de 2022. A sua falência, a segunda maior de um banco de retalho nos Estados Unidos, foi motivada pela crise vivida pelo sector tecnológico: afectados por esta crise, os clientes do SVB, na sua larga maioria ligados ao ecossistema de start-ups de tecnologia, começaram a retirar fundos dos depósitos que tinham no SVB para procurar taxas de rentabilidade mais elevadas.
Para cobrir estas perdas, o SVB vendeu títulos de dívida, cujo valor acabou por cair drasticamente, materializando-se em novas perdas avultadas e levando a uma nova vaga de fuga de depósitos, por parte de clientes preocupados com a sobrevivência do banco. Esta sexta-feira, as autoridades norte-americanas acabaram por assumir o controlo da instituição e entregaram a gestão à Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC, fundo de garantia de depósitos dos EUA).
A história está a ser vista como uma consequência de um fenómeno alargado que os especialistas temem vir a alastrar-se para o restante sector.
A subida das taxas de juro é, à partida, uma boa notícia para o sector bancário, que beneficia directamente do fenómeno pela subida do custo do crédito, que leva a um aumento da margem financeira da banca. Isso mesmo, aliás, fica evidente pelos resultados que têm sido apresentados pelas maiores instituições do sector. Em Portugal, por exemplo, os cinco maiores bancos – Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP, Santander, BPI e Novo Banco – alcançaram, em conjunto, resultados líquidos superiores a 2,5 mil milhões de euros em 2022, um valor que representa um aumento de 68% face aos lucros que tinham sido registados em 2021.
Mas o efeito positivo que a subida dos juros tem sobre a remuneração de vários tipos de instrumentos financeiros, tornando-os mais apelativos do que os tradicionais depósitos bancários, bem como o aumento da procura por soluções de poupança mais rentáveis, numa altura em que a inflação está a levar à diminuição drástica dos rendimentos disponíveis das famílias, faz com que, num segundo momento, este cenário possa tornarse adverso para a banca.
Na prática, os bancos podem vir a enfrentar uma fuga de fundos actualmente alocados em depósitos, para serem colocados em produtos com taxas de remuneração superiores. Este cenário já é, na realidade, um fenómeno que começa a verificar-se em alguns sistemas bancários que tardam em reflectir a subida das taxas nos depósitos, com o português incluído.
No final de Janeiro, de acordo com o Banco de Portugal (BdP), o stock de depósitos de particulares nos bancos residentes totalizava 179,9 mil milhões de euros, uma queda de 2,5 mil milhões de euros em relação ao mês anterior, que representa a redução mais acentuada desde o início desta série estatística do BdP, que remonta a 1979. Esta queda, explicou ainda o regulador, aconteceu num mês em que as subscrições líquidas de certificados de aforro, cuja taxa-base de remuneração já está em 3,5%, aumentaram 2,9 mil milhões.
Noutros países, a tendência é idêntica, o que leva os analistas a deixarem alertas à banca, sobretudo depois da falência do SVB, ainda que defendam que a maioria dos grandes bancos está bem capitalizada e mais protegida contra estes fenómenos, uma vez que oferece um leque variado de produtos financeiros, para além de depósitos tradicionais.
“Não creio que isto seja 2008. Mas a falência do SVB é um importante lembrete de que os bancos fortemente dependentes de depósitos não segurados podem estar sujeitos a fugas de depósitos e de activos financeiros”, diz Sheila Bar, antiga presidente da FDIC, em declarações ao Financial Times.
Perante este cenário, acreditam alguns dos especialistas do sector, poderá vir a gerar-se uma guerra concorrencial para reter os depositantes. “Isto vai acelerar uma guerra nos depósitos e pressionar os resultados dos bancos”, resume Huw van Steenis, vice-presidente da consultora Oliver Wyman, citado pelo FT.
Já outros defendem que o impacto será significativo apenas para os bancos de menor dimensão. “O SVB é um caso especial. As pressões sobre os depósitos serão maiores para os bancos mais pequenos, incluindo bancos regionais”, argumentam os analistas do Barclays, numa nota de research
desta sexta-feira.
175,4 mil milhões de dólares (cerca de 165 mil milhões de euros) era o valor dos depósitos do SVB no final de 2022. Era o 16.º maior banco dos EUA
Economia
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2023-03-12T08:00:00.0000000Z
2023-03-12T08:00:00.0000000Z
https://ereader.publico.pt/article/281857237760554
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