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Afinal, o que fazem as crianças num contexto de educação de infância?

As crianças de tenra idade aprendem porque querem, aprendem sobre o que lhes interessa e este será, muito provavelmente, o ponto fundamental a ser considerado pelos adultos

Mónica Pereira Professora auxiliar do ISPA-Instituto Universitário e investigadora no Centro de Investigação em Educação

A educação de infância oferece, de acordo com o Relatório da OCDE Starting Strong VI (2021), um forte começo de vida a todas as crianças, garantindo oportunidades e experiências equitativas que apoiam o desenvolvimento, promovem o bem-estar e ligam as famílias umas às outras e aos recursos da comunidade. Nos dias que correm, os impactos positivos de um bom começo de vida são conhecidos e são do mesmo modo valorizados — sabe-se que a participação das crianças em contextos de educação de infância de alta qualidade promove o desenvolvimento e tem implicações nas aprendizagens futuras.

Conhecer o modo como as crianças aprendem e o modo de atuar para mobilizar processos de aprendizagem é uma das exigências colocadas aos educadores de infância que diariamente trabalham nas creches e jardins de infância. Por essa razão, o enfoque sobre o que fazem incide essencialmente na fase atual em que as crianças se encontram e não nas seguintes. Procura-se, neste contexto, seguir uma lógica de adequação e não tanto de preparação ou de antecipação para a escolaridade obrigatória, reconhecendo, naturalmente, benefícios futuros, mas focalizados no potencial de desenvolvimento das aprendizagens atuais (OCDE, 2021), resultantes de interações entre ambientes (casaescola), bem como entre crianças, com diferentes adultos (além da família) e com espaços e materiais intencionalmente preparados.

A experiência de aprendizagem das crianças nos contextos de educação de infância encontra-se, assim, muito relacionada com as oportunidades de exploração dos seus próprios interesses, ou seja: a partir do que desperta curiosidade, do que inquieta, das interrogações sobre o que se encontra ao seu redor. As crianças aprendem pela ação concreta e direta e pela forma como se relacionam com isso mesmo, desenvolvendo de modo interligado capacidades cognitivas, sociais, emocionais e de autorregulação.

Neste sentido, se, em jeito de síntese se fizesse, a pergunta “o que fazem, afinal, as crianças num contexto de educação de infância?”, escolheria três respostas, entre tantas outras, como fundamentais:

Recebem cuidados e, deste modo, aprendem a cuidar de si e dos outros. Os cuidados são entendidos há décadas como um ponto essencial do que se faz nas creches e nos jardins de infância, hoje claramente compreendidos como parte do processo educativo, ou, por outras palavras, os cuidados e a educação estão intimamente interligados, como duas faces da mesma moeda — isto é, ao cuidar assegura-se bem-estar físico e emocional, estabelecem-se relações de confiança e de afeto entre crianças e adultos e, deste modo, educa-se.

Aprendem a relacionar-se consigo próprias, com os outros e com o que as rodeia. Exploram persistentemente o corpo, testam limites, experienciam a partilha e a frustração, aprendem que os outros têm perspetivas diferentes, descobrem que o mundo tem sons, cheiros, cores e paladares, que tudo isso se relaciona e que, à medida que o tempo passa, pode ser representado de diferentes formas (pelas artes, pela escrita, pelos números).

Aprendem a perguntar sobre o que desperta interesse e a procurar respostas. Os bebés percebem quando são correspondidos nas tentativas de comunicação que, muito frequentemente, fazem, e os educadores de infância sabem observar e corresponder a estas tentativas, potenciando e mobilizando desafios. É por isso que, por exemplo, quando um bebé repara e observa na chuva que cai, o educador sabe que tem de criar oportunidades. Em primeiro lugar, abre a janela, mais adiante, e à medida que o tempo passa, prepara equipamento para uma exploração direta e, posteriormente, espera (ou incita a) perguntas e inicia, com a criança, a busca — a procura por respostas a questões intrigantes.

As crianças de tenra idade aprendem porque querem, aprendem sobre o que lhes interessa, e este será, muito provavelmente, o ponto fundamental a ser considerado pelos adultos. Por esta razão, atividades segmentadas em áreas disciplinares, muitas vezes “em extra”, ligadas à ideia de uma melhor preparação para a etapa seguinte; ou mesmo incessantes interrupções às dinâmicas contextualizadas que os educadores de infância criam para cumprirem aquela que será a sua responsabilidade maior (diria até mais entusiasmante da profissão), por atividades lecionadas por professores especializados, que permanecem trinta minutos nas salas, não valorizam os interesses das crianças e a responsabilidade de os educadores de infância construírem e gerirem o currículo (Lei de Bases do Sistema Educativo/Lei-Quadro para a Educação Pré-Escolar).

Por esta razão, é tão importante pensar-se no que se faz com o tempo (irrepetível) de se ser criança, evitando que as crianças vivam prisioneiras do tempo dos adultos (Neto, 2020).

ESTAR BEM

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2022-07-03T07:00:00.0000000Z

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