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A escolha entre o ministro da inflação e o radical da motosserra

A incerteza impera na segunda volta das presidenciais argentinas, que opõem o ex-ministro da Economia Sergio Massa ao economista ultraliberal Javier Milei

João Ruela Ribeiro

Termina hoje um longo ciclo eleitoral na Argentina, iniciado há quase três meses, mas nem por isso há qualquer pista sobre qual poderá ser o futuro político do país sul-americano. Depois de uma campanha que deixou a sociedade argentina altamente dividida, a escolha recai entre dois candidatos que parecem vir de planetas diferentes.

É num ambiente de enorme incerteza que os argentinos decidem hoje quem será o novo Presidente: de um lado está o candidato peronista Sergio Massa; do outro está o economista ultraliberal Javier Milei. Os dois chegam ao dia decisivo depois de protagonizarem uma campanha muito intensa.

Com a divulgação de sondagens proibida na última semana de campanha, torna-se ainda mais difícil tentar antever um cenário para a segunda volta das presidenciais. Os últimos estudos mostravam os dois candidatos praticamente empatados nas intenções de voto, embora com uma ligeira vantagem para Milei. Porém, a boa prestação de Massa no debate do último domingo poderá ter atraído votos de última hora na recta final da campanha. Ninguém arrisca prognósticos.

A personalidade de cada um dos candidatos não podia ser mais diferente, tal como as suas propostas políticas. Massa tem um semblante ponderado, um olhar calculista e um dos melhores instintos políticos das “pampas”, enquanto Milei é histriónico, colérico e frequentemente parece dizer tudo o que lhe vem à cabeça. Nem tanto. Para o candidato da direita radical, a campanha da segunda volta serviu para que mostrasse uma face mais moderada, na esperança de aumentar a sua capacidade de atracção de voto.

O homem que se notabilizou com promessas inauditas como o fim da educação e da saúde públicas ou com ideias perturbadoras como a da liberalização do mercado de venda de órgãos humanos veio nas últimas semanas afastar-se da sua imagem mais radical. Nos comícios, a motosserra, adereço que Milei usava para ilustrar o corte que defende com todo o passado recente da política argentina, foi posta de lado.

“Tranquilos: reformas, sim; saúde pública, sim; programas sociais, sim; educação pública, sim. Que muda então? Que sejam os políticos a pagar a conta”, via-se numa mensagem da campanha de Milei.

A mutação do enfant terrible da política argentina fez parte da estratégia perseguida por ambos os candidatos: a conquista dos votos da direita moderada e dos indecisos. Nesse aspecto, Milei averbou uma vitória importante ao conseguir, logo na ressaca da primeira volta, o apoio público de Patricia Bullrich, a candidata do Juntos pela Mudança, que ficou em terceiro lugar. Com ela veio também o ex-Presidente Mauricio Macri, um dos chefes políticos da coligação antiperonista e um dos símbolos maiores da “casta” tão repudiada por Milei.

No entanto, o apoio dado a Milei semeou discórdia nas hostes da direita moderada, levando a uma cisão entre alguns dos seus principais líderes, que preferem o mal conhecido do peronismo, com Massa, a uma incógnita que receiam.

A nível externo, Milei recebeu outros apoios de peso. Sete ex-chefes de Estado de países latino-americanos juntaram-se ao prémio Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa e ao exchefe de Governo espanhol Mariano Rajoy, para subscrever um manifesto de apoio ao economista radical, uniAo

adversário, Massa ensaia um afastamento do peronismo, sobretudo de figuras como o ainda Presidente Alberto Fernández ou a ex-Presidente Cristina Kirchner, praticamente ausentes da campanha. “Votar em Massa não te torna peronista”, dizem algumas mensagens de campanha partilhadas nas redes sociais, segundo o El País.

Ao longo do seu percurso político, Massa foi crítico, apoiante, dissidente e líder do peronismo, tudo isto em poucas décadas. Tal como o próprio movimento, que foi sendo várias coisas e o seu contrário, conforme o espírito do tempo. Hoje, Massa será o anti-Milei e para muitos poderá ser suficiente. O politólogo Diego Raus, num artigo no site Latinoamerica 21, descrevia Massa como “o candidato ‘que ficou’, ou seja, nem procurado nem querido pelo espaço político que representa”. E esse talvez seja o seu maior trunfo.

Em entrevista recente ao El País, o sociólogo argentino Juan Carlos Torre dizia que “a Argentina vive um momento extraordinário”. “Tem um candidato a Presidente que é um ministro da Economia de uma economia inflacionária e tem o seu rival que convida a dar um salto para o desconhecido, porque o seu mérito é nunca ter feito nada.”

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2023-11-19T08:00:00.0000000Z

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