Vladimir Putin O vilão do ano
Sem competição à escala global, o Presidente da Rússia foi o vilão do ano de 2022, papel que assumiu a 24 de Fevereiro, quando decidiu invadir a Ucrânia e lançar uma guerra que já ultrapassou os 300 dias e que não tem final à vista.
Desde então, tudo correu mal a Vladimir Putin. Não festejou a esperada conquista-relâmpago da Ucrânia, em que, nos seus sonhos, as forças russas seriam recebidas como libertadoras do “jugo nazi” do Governo de Kiev. Não previu a resposta decidida do Ocidente, que desde o primeiro minuto se pôs ao lado dos ucranianos, ao contrário do que acontecera em 2014, quando a
Rússia anexou a Crimeia. Depositou uma confiança no poder da máquina de guerra russa que acabou por revelar-se desproporcionada: não só a resistência feroz dos ucranianos na defesa da sua pátria foi impedindo a conquista de território, como as armas ocidentais que, entretanto, começaram a chegar viraram o rumo da guerra, com uma sucessão de derrotas no terreno que não deixaram a Putin outra alternativa senão bombardear as cidades e as infra-estruturas energéticas da Ucrânia.
O desespero do Kremlin perante os fracassos da “operação militar especial”, como Putin baptizou a guerra que lançou no Leste da Europa, ficou visível não só aos olhos do mundo, como dos próprios russos, quando, no final de Setembro, decretou uma mobilização parcial que atirou mais 300 mil soldados mal preparados e mal armados para o meio do conflito, ao mesmo tempo que anunciava a “anexação” de quatro províncias ucranianas: Donetsk, Lugansk, Zaporijjia e Kherson. Esta última foi, rapidamente, reconquistada por um exército ucraniano moralizado, em mais uma humilhação para Putin. Pelo meio, o Presidente russo não deixou de tentar intimidar a Ucrânia e os aliados ocidentais com a carta da ameaça nuclear, sem sucesso. O apoio à invasão entre a população russa começou também a erodir-se, ainda que lentamente, mas o suficiente para deixar Putin preocupado com o caminho de uma guerra que vai entrar por 2023 adentro. Paulo Narigão Reis
Sabia, provavelmente, que o mundo deixara de caminhar no sentido mais favorável à Europa. “Dois meses depois de me tornar ministra da Defesa, a Rússia anexou a Crimeia e iniciou uma guerra híbrida no Leste da Ucrânia. Três meses depois, o Daesh emergiu na Síria e no Iraque. Continuava a guerra no Afeganistão. Logo a seguir tivemos a crise no Sahel.”
A sua escolha foi quase um acaso. Angela Merkel tinha negociado com os líderes de centro-esquerda o apoio ao socialista holandês Frans Timmermans. Não contou com a forte oposição do PPE, que vencera as eleições para o Parlamento Europeu e se achava com direito ao lugar. O impasse levou a uma terceira escolha. Foi uma surpresa. Três anos depois, é legítimo dizer que foi uma boa surpresa.
Von der Leyen revelou uma enorme capacidade de liderança na sucessão de crises que a Europa está a viver desde o início do 2020. Durante a pandemia, foi decisiva para o Programa de Recuperação e Resiliência de quase 800 mil milhões de euros, que os líderes europeus aprovaram em Maio de 2020 para fazer face às suas consequências económicas e sociais.
Impediu que os países mais poderosos açambarcassem as vacinas disponíveis em detrimento dos outros, com um programa de compra conjunta e distribuição equitativa.
Foi, no entanto, a invasão da Rússia à Ucrânia que a pôs à prova e que lhe permitiu a sua mais notável prestação política. Talvez tenha percebido que a União Europeia estava perante uma prova de vida que poderia destruí-la ou, pelo contrário, consolidar a sua unidade.
Em Setembro de 2020, no seu primeiro discurso sobre o estado da União, tinha alertado para o perigo de uma reaproximação à Rússia, desejado por Paris e Berlim, e apelou ao descongelamento das relações transatlânticas. Poderia pensar-se que uma guerra nas fronteiras da Europa seria um assunto para os governos e não para a Comissão, cujo papel na política externa e de segurança é mínimo. Não foi assim. Von der Leyen encontrou as palavras certas para dizer o que estava em causa – desde a primeira hora. Foi um dos primeiros líderes europeus a verem com os seus próprios olhos as valas comuns de Bucha e a visitar Zelensky em Kiev. Para lhe dizer, primeiro que todos os outros, que o lugar da Ucrânia era na União Europeia. Percebeu sem a menor tergiversação que a
NATO e a aliança transatlântica ganhavam de novo uma importância vital para a Europa. Criou uma óptima relação com Joe Biden. O Presidente americano, ao contrário dos seus antecessores e das previsões de Kissinger, sabe o seu número de telefone e liga-lhe com frequência.
No seu último discurso sobre o estado da União, em Setembro deste ano, ela e todas as comissárias apresentaram-se em Estrasburgo vestidas com as cores da bandeira ucraniana. A sua figura elegante feminina esconde uma vontade de ferro. Com a presidente do Parlamento Europeu e as primeiras-ministras da Estónia e da Finlândia simboliza a resistência à guerra imperialista de Putin e o apoio ao povo ucraniano. “Nestes anos de crise vimos a melhor versão da União Europeia.” Só falta acrescentar às suas palavras que o seu contributo foi decisivo. Teresa de Sousa
Balanços E Antevisões 2022/2023
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2022-12-24T08:00:00.0000000Z
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