Em privado, com amigos e família, era sentimental, bem-humorado, disponível. Extrovertido também. Era um nada
Por
António Pedro Pereira
Em primeiro plano, Francisco Salgado Zenha, nos anos 1930, em Soutelo, freguesia de Vila Verde a menos de dez quilómetros de Braga. À direita na imagem, Maria Teresa Machado (mãe do ex-procuradorgeral da República José e do arquitecto Eduardo Souto de Moura). O grupo de veraneantes posa naquilo que parece um campo de ténis, desporto que foi uma presença regular na vida e na família de Salgado Zenha
Quase 30 anos após a morte (no dia 1 de Novembro de 1993), a face humana de Francisco de Almeida Salgado Zenha começa finalmente a ressurgir na região de Braga. Foi no centro desta cidade que nasceu há 100 anos e é aqui que está centrado o programa de celebração do centenário, a 2 de Maio, daquela que é uma das figuras mais relevantes da luta antifascista e do combate ao Estado Novo. O aluno e jurista brilhantes, o advogado implacável, o político incansável. E o ser humano afável, generoso, sentimental. Um homem racional e de grandes paixões, com total disponibilidade para os outros — o país, os cidadãos, os amigos, a família.
Ficam aqui alguns dos traços de personalidade que ajudam a compor a biografia de um homem que se conjugava com liberdade e exigência e que escolheu a alegria de viver. Liberdade de escolher, aliás, foi sempre o seu objectivo enquanto homem do Direito, político de esquerda, do filho, do irmão e do marido. Essa irredutível luta cívica e democrática custou-lhe a liberdade própria (esteve preso cinco vezes por dissidência política) e da família — por exemplo, o irmão mais velho, Henrique, foi impedido de exercer medicina em organismos públicos pelo regime de Salazar, que lhe abriu ficha política, ele que nunca teve actividade nesse campo.
Neste “perfil sentimental”, emergem memórias vivas de Salgado Zenha na capital minhota, onde viveu desde que nasceu a 2 de Maio de 1923, no Largo da Senhora-a-Branca, no coração de Braga, até ir cursar Direito para a Universidade de Coimbra no início dos anos 40 do século XX. Daí seguiu para trabalhar como advogado em Lisboa, onde se tornou numa das vozes indomáveis para o Estado Novo. Mas regressaria sempre a casa. A Braga. Para as longas férias familiares de fim de Verão em Soutelo, freguesia do concelho vizinho de Vila Verde; para três mandatos, entre 1977 e 1983, como presidente da Assembleia Municipal de Braga, indicado pela estrutura nacional do Partido Socialista.
Um bom ponto de partida para esta viagem pela vida do fundador do PS é a nota biográfica que lhe é dedicada pela Assembleia da República: “Francisco
Salgado Zenha, advogado, foi fundador, militante, dirigente e deputado do Partido Socialista (PS) até 1985, ano em que se candidatou à presidência da República. No início da década de 40, ainda estudante na Universidade de Coimbra, adere ao Partido Comunista Português (PCP). A sua oposição à ditadura levou-o à prisão por cinco vezes (entre 1944 e 1974). Afasta-se, entretanto, do PCP e junta-se à Resistência Republicana e Socialista, criada em 1955, e transformada, em 1964, em Acção Socialista Portuguesa (ASP). Em 1973, por decisão do congresso, a ASP é convertida em Partido Socialista. O seu currículo político inclui ainda a chefia dos ministérios da Justiça e das Finanças, respectivamente, nos 1.º e 7.º Governos Provisórios do pós-25 de Abril.”
O percurso político de Salgado Zenha é marcado pelo compromisso, tendo militado em dois partidos históricos da esquerda, e dos dois se tendo afastado. A militância foi encarada sempre com muita racionalidade, mas sem se deixar fazer refém das lutas fratricidas. “Não serei instrumento de ninguém” era a máxima inegociável do político que em 1985 decide candidatar-se contra o “irmão” Mário Soares, outro dos fundadores do Partido Socialista, nas eleições presidenciais de 1986 (ganhas por Soares numa segunda volta vibrante contra Freitas do Amaral, fundador do CDS). Então, separou-os uma democrática divergência quanto aos poderes do Presidente da República.
Silo da memória
Salgado Zenha, o homem público, ficou para a posteridade como sendo altamente racional e detentor de uma capacidade de oratória e de exposição difíceis de contestar, tal era a qualidade de tribuno, fosse nas arenas políticas, fosse nas judiciais. O cidadão, esse cresceu com inf uências liberais e católicas muito fortes, que fizeram dele uma reserva moral e ética que hoje é admirada em todos os quadrantes políticos.
Na busca por uma biografia deste bracarense, sobressai a liberdade ética que empregou e defendeu a vida toda. Mesmo que isso lhe custasse a liberdade, mesmo que soubesse o quanto sofria a família quando era punido pelo Estado Novo por delito de opinião.
“No plano moral — que é o que interessa — só é vencido quem desiste de lutar”, como afirmou Salgado Zenha, numa frase que foi encapsulada na primeira grande
do Silo da Memória, só existia uma Avenida do Dr. Francisco Salgado Zenha desde o início deste século, um troço de uma cintura interna, ainda do tempo do socialista Mesquita Machado. Mesquita que coabitou no governo da cidade com Salgado Zenha: o primeiro como escolha da estrutura local, e que liderou a câmara quase ininterruptamente entre 1977 e 2013; o segundo como presidente da Assembleia Municipal entre 1977 e 1983, como opção do PS nacional.
Resumindo, só o centenário do nascimento uniu sociedade civil e política em torno da figura de Salgado Zenha. Com a Comissão Promotora de Homenagem aos Democratas de Braga como plataforma de união, a cidade, a autarquia, a assembleia municipal, a Universidade do Minho, todos se juntaram a um longo programa de homenagem a uma das maiores figuras democráticas da capital do Minho e do país. Desde o passado dia 20 de Abril e até ao próximo ano, há exposições, conferências nacionais e internacionais, sairá um livro e será apresentado um documentário.
Burguesia ética
Em torno desta figura nacional, Braga assume-se como o berço da celebração do homem, do advogado e do político. O homem que foi inf uenciado por uma família (paterna e materna) que fez fortuna no Brasil e, de volta a Portugal, se revelou liberal nos costumes através do pai, apesar do forte pendor católico e conservador da mãe.
O advogado, esse notabilizou-se em processos de grande impacto mediático, como o caso da herança Sommer, em que deu a volta a um longo processo que parecia perdido por parte de António Champalimaud, mas também a defender resistentes de acusações políticas por parte do regime ditatorial.
Já o político foi, acima de tudo, um combatente pela liberdade, primeiro como militante do PCP, depois como fundador e figura de proa do Partido Socialista, mais tarde como independente, após a cisão provocada pela sua candidatura presidencial em 1986 à margem do PS — que resultaria numa vitória de Mário Soares frente a Freitas do Amaral, numa surpreendente segunda volta. Na primeira volta, Freitas dominou com 46,31% dos votos, tendo Soares conseguido o lugar na segunda por menos de 5% (25,43% contra 20,88% de Zenha, que foi apoiado pelo PRD, de Ramalho Eanes).
E por detrás destas facetas, que homem estava? “O avô do meu tio Francisco tinha sido emigrante no Brasil, era uma família muito abastada, no Rio de Janeiro, onde nasceu o pai”, enquadra o sobrinho José Henrique Salgado Zenha, filho do irmão mais velho de Francisco, Henrique Salgado Zenha, que herdou o nome do pai de ambos, Henrique de Araújo Salgado Zenha (Rio de Janeiro, 25 de Maio de 1887-Braga, 12 de Agosto de 1957). “O tio-avô teve um título atribuído por D. Pedro, imperador do Brasil, e mais tarde confirmado por D. Carlos, de Portugal”, acrescenta.
“O pai era muito liberal, muito para lá da realidade de Braga nas primeiras décadas do século XX, e foi muito importante na formação de Salgado Zenha”, prossegue José Henrique. “Já a mãe era de origem brasileira, de duas gerações que passaram por Belém do Pará. Era muito conservadora, muito católica.”
Ou seja, na construção da visão do mundo de Francisco Salgado estiveram fortes inf uências liberais, por um lado, e católicas conservadoras, por outro. “Julgo que criou uma necessidade de escapar ao conservadorismo da mãe”, comenta o sobrinho.
Ernestina Mesquita de Almeida e Silva, assim se chamava a progenitora de Francisco, nasceu no seio de uma família de Cedofeita, no Porto.
De um lado, o paterno, foi-lhe incutida uma grande liberdade; do outro, o materno, a exigência própria da burguesia de então, uma espécie de “burguesia ética”, valores que Francisco tomou como pedras basilares da sua intervenção cívica e política.
Do casamento dos pais, Henrique e Ernestina, resultaram seis filhos, sendo Francisco, por ordem cronológica, o quinto de seis irmãos, com três irmãos e uma irmã mais velhos, e uma irmã mais nova, todos baptizados com os apelidos de Almeida Salgado Zenha. O pai de José Henrique era o mais velho: Henrique, que foi um estomatologista de renome em Braga, nasceu a 12 de Julho de 1916 e morreu a 29 de Março de 1974. Seguiram-se Rogério (1917-1975); Artur (1921-2006); Maria Cecília (1920-2000), antes de Francisco nascer em 1923, penúltimo da prole, completada por Maria Darcília (1926-2011).
Francisco de Almeida Salgado Zenha nasceu a 2 de Maio de 1923 no número 129 do Largo da Senhora-a-Branca, ali perto do início da Rua do Raio, no centro de Braga. A família mudar-se-ia depois para a Rua de São Vicente, número 218, casa onde o pai de Francisco montou consultório médico e se tornou numa figura estimada da cidade — e que hoje já não existe, tendo sido substituída por um prédio de apartamentos.
A propósito, o pai Henrique demonstrou ser uma figura muito moderna desde cedo: em 1913, após a licenciatura na Universidade de Coimbra, fez uma viagem de comboio pela Europa. As viagens pelo Velho Continente foram, também, uma das paixões de Francisco.
Mas voltemos ao início. Na casa da Senhora-a-Branca, que foi vendida pelos herdeiros após a morte de Francisco em 1993, será descerrada uma placa evocativa do centenário do nascimento de Salgado Zenha, contendo sobre ele um pequeno texto biográfico e uma imagem, numa homenagem assinada pela Assembleia Municipal de Braga, pelo Município de Braga, pela Universidade do Minho e pela Comissão Promotora de Homenagem aos Democratas de Braga, um movimento cívico com várias personalidades de áreas distintas da sociedade bracarense.
Na nota biográfica, são destacados alguns dos eventos da vida de Francisco Salgado Zenha, das colaborações que manteve desde muito jovem na imprensa, às participações activas nas campanhas dos oposicionistas Norton de Matos (1948) e Humberto Delgado (1959) à Presidência da República durante o Estado Novo; das candidaturas a deputado pela Oposição Democrática em 1965 e 1969; da eleição para deputado da Assembleia Constituinte em 1976, aos de ministro da Justiça (em vários Governos Provisórios) e de ministro das Finanças (VI Governo Provisório).
E sublinha-se o papel fundamental que teve tanto na negociação da Concordata entre Portugal e a Santa Sé como na liberdade sindical, face à pretensão de imposição de uma central sindical única.
Coração de Braga e do Soutelo
Este espírito de abrir a sociedade à democracia em todos os aspectos da vida de Portugal, antes e depois da longa ditadura de 47 anos, 11 meses e quatro dias (1926-1974), começou a entranhar-se muito cedo no percurso do aluno brilhante que foi Francisco Salgado Zenha.
Francisco estudou no Colégio Dublim, que existiu em Braga até aos anos 50, e seguiu depois para o então Liceu de Braga (hoje, Liceu Sá de Miranda), tendo-se destacado sempre como excepcional aluno, como recorda o sobrinho José Henrique, nascido em Braga em Novembro de 1949.
“Estamos a falar dos anos 30 [do século passado]. Braga foi muito importante na formação do meu tio, notando-se mais a partir do momento em que vai para Coimbra tirar o curso de Direito no início da década de 40. Conhece bem os valores nortenhos, da burguesia, do minifúndio, dos valores do trabalho e da propriedade”, regista José Henrique, que mais tarde foi estudar Direito para a Universidade de Lisboa e viveria vários anos com o tio na capital.
“O meu tio sempre soube que as rupturas radicais eram prejudiciais para o progresso.
Ele era de uma burguesia ética e Braga pode ter tido uma inf uência ao contrário, devido ao seu excessivo conservadorismo. Provocou-lhe uma maior demanda pela liberdade, numa luta sempre com uma grande exigência”, diz José Henrique.
Braga foi, portanto, determinante na formação do carácter deste liberal ético, que propunha uma grande liberdade para todos, mas com grande exigência nesse exercício cívico democrático. Fruto de valores contraditórios em casa, trabalhou-os intelectualmente numa fórmula de consciência cívica em que a moral se regia pelos princípios universais da liberdade, igualdade e fraternidade, mote da Revolução Francesa do final do século XVIII.
Antes disso, havia a vida na cidade e a vida no campo — as longas férias que a família passava na Quinta do Padrão, em Soutelo, freguesia de Vila Verde a menos de dez quilómetros de Braga.
“Os meus avós, pais do Francisco Salgado Zenha, mudavam-se para Soutelo de Junho a Outubro. Desfazia-se a casa de Braga e ia um carro de bois da quinta buscar as coisas de maior valor”, conta José Henrique.
“Nessa casa, morreram o meu avô e a minha avó. O meu avô reformou-se relativamente cedo, por volta dos 60, após alguns episódios cardíacos, e depois entreteve-se a fazer uma quinta-modelo ali. Foi das primeiras a produzir milho híbrido em Portugal e o meu avô fazia questão de dizer que era das que tinha milheirais dos mais altos da Europa. Mas produzia muitas outras coisas, como espargos e vinho, com várias castas especiais, entre muitas outras culturas”, diz José Henrique.
“Era uma quinta de cerca de seis hectares, o que era razoável para o Minho, mas não para o país, sobretudo no Alentejo. A partir de Agosto, todos os filhos passavam lá um mês de férias. O meu tio Francisco, por norma, estava lá de 15 de Agosto a 15 de Setembro, apanhando o ano judicial. Estava lá ele e os irmãos todos. Era um universo familiar muito grande: pais, irmãos, cunhados, sobrinhos, e as duas empregadas, que já eram da família, sobretudo a Rosa, que se tornou como numa tia para mim — e ainda temos saudades dela”, lembra o sobrinho de Salgado Zenha.
“Dava uma grande riqueza e sensação de integração familiar”, sublinha, indicando um dos contextos onde prosperou a personalidade afável e bem-humorada do tio Francisco. “O Soutelo tem uma geografia muito agradável, fica perto da Ponte do Bico [zona balnear de rio tradicional de Braga],
tomava-se banho no rio Cávado.”
Soutelo era lugar de longas férias familiares, em que esse enorme universo se expandia com a junção de outras famílias que também veraneavam por ali. Era o caso dos Souto de Moura, do Porto, com os pais do ex-procurador-geral da República José e do arquitecto Eduardo; dos Costa Pereira; dos Valença, oriundos de Viana do Castelo.
Foi a conf uência dos interesses de lazer destas famílias que as levou a fundar, em 1938, o Grupo Desportivo de Soutelo, tão relevante para o próprio Francisco mais tarde, sobretudo na prática do ténis, do qual se tornou um grande aficionado e também praticante regular. “Inicialmente, o clube tinha umas instalações modestas, mas mais tarde foram inauguradas outras onde o meu tio jogava ténis nas manhãs”, regista o sobrinho.
O ténis não foi a única modalidade desportiva relevante na vida de Francisco Salgado Zenha, mas tornou-se muito especial porque a futura esposa, Maria Irene, seria campeã nacional da modalidade. “O meu tio gostava muito de nadar — era muito bom nadador. Normalmente, os dias em Soutelo passavam por idas esporádicas à praia de
Ofir [Esposende], banhos diários no rio Cávado e no rio Homem e pelo ténis e… ia muito à piscina. Quando não se ia à praia, que era só duas ou três vezes por semana, ia-se jogar ténis de manhã, mas mais tarde — ele, a mulher e o irmão —, depois ia-se tomar banho ao rio e só depois é que se ia almoçar, já bem tarde”, conta José Henrique.
E continua: “Depois do almoço, [Salgado Zenha] ficava a trabalhar em casa. Fazia-se um silêncio quase de veneração. ‘O senhor doutor está a trabalhar...’.”
Maria Irene
A natação foi um hábito que Salgado Zenha manteve em Lisboa — o jornalista e escritor Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), que permaneceu como militante comunista apesar dos confrontos com o PCP, falaria disso e dos encontros de ambos nas piscinas da Avenida de Roma, em Lisboa.
No entanto, o ténis teria um lugar especial, não só porque era uma modalidade que praticava desde muito novo, mas também porque a sua esposa, Maria Irene (1919-2014), era craque: competiu em várias provas e chegou a ser campeã nacional.
Apesar de ser da região de Braga e de as famílias de ambos manterem relações de proximidade, só começaram a namorar já em Lisboa, quando Maria Irene ainda vivia com a família na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro.
Francisco e Maria Irene viriam a casar no dia 15 Setembro de 1958 e nunca teriam filhos. Ficaram juntos até à morte de Francisco, em 1993.
Maria Irene não teve qualquer militância política, mas foi sempre muito interventiva civicamente. Morreu em Janeiro de 2014 num lar que ajudou a fundar largos anos antes, o da Associação para Serviços de Apoio Social, o ASAS, na Rua Sousa Lopes, em Lisboa. Também ela oriunda de uma família conservadora católica, teve uma vida muito activa, tanto no ténis como no associativismo cívico.
Como casal, mantiveram-se unidos e cúmplices, enfrentando as investidas do Estado Novo que cercearam as liberdades fundamentais a Francisco, que, além de cinco vezes preso (duas delas, mais de um ano de cada vez), esteve vários anos impedido de tirar a carta de condução por lhe ter sido decretada a perda de direitos civis devido à sua acção política como opositor do regime.
Uma das actividades a que ambos se entregavam era a de viajar. França foi sempre um destino de eleição de Salgado Zenha, mas a Europa em geral foi sempre um espaço que exploraram juntos, muitas vezes com outros casais.
Cá dentro, no entanto, também se deslocavam muito. Um pouco por todo o país, pegavam no carro e faziam-se à estrada. “Eles gostavam muito de viajar. O meu tio teve dois ‘carochas’ e ainda me lembro da matrícula de um: TO-21-37. Era um ‘carocha’ bege”, recorda José Henrique. O sobrinho lembra-se de muitos passeios de carro, sobretudo quando o núcleo de várias famílias se reunia em Soutelo.
De carro, este grupo ia muitas vezes a banhos matinais a Ofir, mas também a outros destinos. Nestas incursões, alinhavam alguns dos amigos de Braga com quem Francisco Salgado Zenha manteve proximidade toda a vida, como as famílias veraneantes de Soutelo. Outros amigos, por afinidade profissional, eram os também advogados
José Salgado, José Sampaio, José Tarroso Gomes ou Francisco Tinoco de Faria.
Esta conf uência de interesses e inf uências, de Braga a Soutelo, tiveram um grande impacto na formação da personalidade de Salgado Zenha. “Tinha uma imagem pública que era muito fria e cerebral, por causa da exigência dele. Mas era uma pessoa muita afável, divertida e alegre”, diz José Henrique sobre as facetas menos conhecidas do tio.
“Se, por um lado, era de uma enorme lucidez e clareza de exposição, o que tornava difícil de contestar as posições dele, sendo muito racional e lógico, por outro, era muito afável e muito bondoso. Acima de tudo, foi uma pessoa sempre muito disponível. Foi ele e o meu tio Artur que me ensinaram a nadar”, recorda. Mas era por bem mais do que isso que Salgado Zenha era considerado solidário e disponível para todos. Ajudava se algum amigo ou familiar precisava, dava ajuda de várias formas, apoiava. Até em termos económicos, auxiliou muita gente. Como, por exemplo, quando Mário Soares estava exilado em França e recebeu um empréstimo considerável dele.
Depois de Braga, Coimbra também se manteve muito relevante na sua vida. Como presidente da Associação Académica, entre 1944 e 1945, quando foi destituído por se recusar a ir a Lisboa cumprimentar Salazar, fez os mínimos futebolísticos. “Lembro-me que quando nos queria motivar, usava uma expressão muito curiosa: ‘furriquique’”, ri-se José Henrique. Na altura, era comum os adeptos de futebol expressarem-se com os termos técnicos em inglês. E do grito, hoje, a pedir “falta”, na altura os árbitros eram pressionados das bancadas com o “free kick” (livre directo). Dos jogos de futebol da Académica a que assistia, Francisco Salgado Zenha absorveu este grito tribal e transformou-o numa corruptela familiar. “’Furriquique! Furriquique!’ Usava sempre esta expressão quando nos queria congratular ou motivar.”
Da academia de Coimbra, também passou para os festejos na vida particular o grito estudantil ‘efe-erre-á’: “Não havia aniversário em que não gritasse o ‘Urra! Urra! Urra!’”.
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